Mãe, aquela que nos pariu !





O texto que se segue, de minha autoria, resulta de uma pesquisa que fui fazendo ao longo dos anos, recolha de testemunhos com a principal visada, a nossa mãe, e outras evidências que todos nós conhecemos e ou vivenciamos.

Esta Senhora, Maria Emília Santos Bimba, nascida a 24 de outubro de 1933, a nossa mãe, que teve 20 gravidezes, das quais resultaram dois abortos, e dezoito partos, passou uma longa vida de “esperanças”. Dos dezanove filhos nascidos, foram criados sete raparigas e sete rapazes, tendo perecido cinco. Se somarmos os dois abortos, conseguimos chegar ao número extraordinário de 21 seres. 

Foi mãe pela primeira vez com 17 anos, tendo ficado grávida com 16 aninhos, uma verdadeira criança ou adolescente, que terá sido “enganada” por um homem com mais 12 anos.


A menina, com corpo de mulher, com uma carinha larocas e uma grande presença visual bem como pela beleza que ostentava, embeiçou-se pelo marmanjo, um fulano já vivido e quase trintão. Aquilo que começou por ser uma brincadeira, com um sorriso para aqui e outro para ali, com o aproximar de corpos cada vez mais quentes, com uns beijinhos roubados e outros não roubados e mais frequentes, era de prever o pior. Com toda esta envolvência, era previsível o que acabou por acontecer, ou seja, as coisas começaram a tomar proporções mais sérias e o inevitável aconteceu mesmo. A vida da menina Emília, que não tinha sido fácil até aqui mais difícil ficou a partir do momento que tomou conhecimento de que havia ficado gravida do seu primeiro rebento.

Pode dizer-se que a vida nunca lhe mostrou aquele sorriso generoso e sublime a que tinha direito; nunca pôde desfrutar da felicidade que outros jovens, da sua idade, usufruíam; nunca foi, na verdadeira acepção da palavra, uma menina. Fez-se uma jovem moça quando ainda devia andar a brincar com bonecas, tornou-se adulta quando ainda nem tinha chegado à puberdade, chegou a mulher repentinamente, com consequências desastrosas. Sonhar terá sido das poucas coisas de que podia desfrutar, concretizar esses sonhos em realidade é que foi mais difícil.


Apesar de toda uma vida de amarguras, na meninice, na adolescência e no casamento, terá descoberto que o seu maior feito foi ter colocado no mundo cada um dos seus rebentos. Foram experiências sofridas, mas que lhe enchiam a alma, abriam-lhe o coração e lhe proporcionava maravilhosos e agradáveis sorrisos de orelha a orelha. Foram os filhos que lhe causaram as maiores alegrias, mas também, as maiores preocupações. Foram os filhos e mais tarde os netos que lhe concederam uma vivencia familiar que não teve durante muitos anos da sua vida.

A menina Emília era filha de um casal com fracos recursos financeiros, podendo dizer-se que eram recursos mínimos de sobrevivência. Naquela época, anos 30 do século passado, a grande maioria das pessoas vivia com grandes dificuldades, mesmo aquelas que tinham negócios estabelecidos, não usufruíam de tudo o que mais desejavam. 

Ele, Manuel Manteigas Bimba, era sapateiro, e para colocar pão na mesa dos filhos teve que calcorrear muitos quilómetros e localidades para conseguir exercer a sua profissão e ela, Maria de Jesus Nunes Santos, era doméstica e ocupava-se dos três filhos do casal mais um outro de anterior relação. O casal vivia numa casa muito modesta, numa quelha muito estreita que dava para a rua da cale e para o largo de S. Francisco.

Mas se a vida com os dois progenitores era muito débil, pior ficou quando a Maria de Jesus morreu, em 1938, e deixou nos braços do Manuel, duas filhas, uma com cinco, a Maria Emília, nascida a 24 de outubro de 1933, outra com três anos, Maria de Lurdes, nascida a 21 de janeiro de1936 e um bebé com 16 meses, Francisco, nascido a 24 de janeiro de 1937.


 

Apesar de viver com dificuldades e ter pouco tempo para as tarefas familiares e profissionais, sempre arranjava um tempinho para exercer uma função que muito prazer lhe dava. A musica foi fazendo parte da sua vida, e por isso, sempre integrou as bandas filarmónicas da vila do Fundão. Primeiro na Banda Velha, como lhe chamavam, e depois na banda Nova. O Manuel Bimba, nosso avô, tocava caixa nessas bandas.

Sem ter um trabalho fixo ou mesmo uma residência fixa, o Manuel Bimba teve que se desdobrar, entre o trabalho, que tanto podia ser exercido no Fundão, nas Donas ou mesmo em Alcains e o criar e educar os três filhos, ainda crianças.  As ajudas não eram muitas, mas uma delas veio na hora certa e a propósito. A Maria de Lurdes foi adotada por uma família abastada de Castelo Novo. A família Falcão sempre tratou a Maria de Lurdes muito bem, foi de lá que saiu para se casar, ainda que, quando esta passou a ter idade para trabalhar, ela passou a ser, na verdadeira acepção da palavra, a empregada domestica da casa.

Manuel Manteigas Bimba - musico na banda velha

O Manuel Bimba ficava, assim, com a Emília e o Francisco. A Emília, com os seus cinco anitos é que tratava do irmão. Alimentava-o, mudava lhe as fraldas, brincava com dele e levava-o a casa de uma senhora, esposa do Senhor Santos Marques, um conhecido comerciante de ferragens no Fundão, com estabelecimento na Rua da Cale, que tinha um filho com a mesma idade, para que lhe desse a mama e ou outra alimentação.

Esta era uma rotina diária enquanto a residência foi no Fundão, mas como o trabalho do pai podia estar aqui ou ali, tudo mudava muito depressa. Nas Donas, onde viveram uma boa temporada, as rotinas foram, necessariamente alteradas e as ajudas dos residentes/vizinhos nesta localidade, numa primeira fase, não se revestiam de grandes préstimos, até porque as necessidades batiam em quase todas as portas, mas, com o passar do tempo e melhor conhecimento da família Bimba,  lá apareceram as pessoas mais bondosas a prestar apoio e a proteger as duas crianças. Era um tempo de grande miséria, que a todos atingia. Mas como não há bela sem senão, numa determinada ocasião, a jovem Emília, agora com seis anitos, teve que ir à ribeira para lavar alguma roupa, dela própria, do irmão e de seu pai, uma daquelas vizinhas que em vez de ajudar só desajudavam, sugeriu à jovem que estendesse a roupa e que, enquanto secava, fosse brincar, prometendo-lhe que ela própria tomava conta da roupa.  Acreditando na "bondade" da vizinha, a inocência é mesmo assim, lá foi ela a brincar. Quando regressou verificou que lhe tinham roubado a roupa. Ora, para quem pouco ou nada tinha ter ficado sem a roupa que tanto lhe tinha custado a lavar e, principalmente obter, a tristeza e a revolta foram imensas. Não foi fácil explicar ao pai o que lhe tinha acontecido.

Quando a Emília fez 9 anos, um casal que morava em Lisboa, ali bem próximo da estação de Santa Apolónia, prontificou-se a leva-la com eles, com a promessa de que a iriam tratar como família. O pai Manuel, perante as dificuldades da vida, aceitou a proposta, visto que deixava de ter uma boca para alimentar, para vestir e para cuidar. A Emília lá seguiu para Lisboa com muitas esperanças de melhor vida. Mas, aquilo que devia ter sido uma integração na família, do referido casal, não passou de obterem uma mão de obra barata, nos serviços domésticos. A jovem Emília é que tinha que fazer todo o trabalho de casa e quanto mais velha ficava, mais exigências eram feitas, pela “família” de acolhimento. Na verdade, a Emília não passava de um jovem sopeira, como antigamente se chamavam as empregadas domésticas, neste caso, sem receber qualquer compensação pelo serviço prestado. O trabalho era pago pela alimentação que ela própria ajudava a confeccionar e pela roupa lavada, que ela própria lavava.


Como a experiência lisboeta não correspondeu ao que estava previsto e tinha sido previamente combinado, a Emília regressou ao Fundão, quando tinha 11 anos. Pela experiência adquirida, foi fácil arranjar uma casa onde pudesse trabalhar. Servir por servir, era preferível faze-lo na sua terra natal onde tinha o seu pai e o seu irmão como amparo.

A Emília, por via da necessidade de ter que tratar do irmão, numa primeira fase e ter ido "trabalhar" para Lisboa, posteriormente, nunca lhe conseguiram arranjar tempo para a mandarem à escola, para dessa forma se instruir. A escola, naquele tempo era quase reservada aos rapazes. Por isso, sem qualquer qualificação, teve que sujeitar a ir servir para casa da família Teixeira, como empregada doméstica. Não ganhava muito, mas ganhava alguma coisa e sabia que estava ali como criada e não como um suposto membro daquela família, que não era.

Aos 16 anos a Emília ficou gravida de um homem 12 anos mais velha que ela. Foi uma desgraça para ela e uma preocupação para a família. O José Maria Ribeiro, nascido a a 19 de abril de 1922, mas apenas registado a 24 de junho do mesmo ano, «nosso pai, um alfaiate que trabalhava na oficina (hoje seria atelier) da alfaiataria Freire, na rua do cale, terá “enganado” a jovem, não assumindo a responsabilidade do ato praticado pelo dois. A jovem era menor e essa situação mais complicada ficou quando a 22 de maio de 1951, então com 17 anos, deu à luz uma menina a quem deram o nome de Maria Isabel (Bé).

O José Maria Ribeiro, nosso pai, filho de Joaquim Ribeiro e Maria Cândida, neto de Joaquim Ribeiro e Maria Águeda de Jesus, mantinha a sua decisão de não assumir a responsabilidade de ter sido pai e tão pouco aceitou perfilhar a criança.

Esta situação foi controversa, muito constrangedora e mesmo muito desagradável para ambos. Naturalmente, também a criança,  que não tinha culpa do ato que os pais tinha praticado estava a passar por uma situação, no mínimo, desagradável e desajustada. Perante o impasse que não se resolvia, a justiça começou a fazer o seu trabalho resultando daí numa sentença, proferida pelo tribunal, que determinava a obrigatoriedade do José Maria ter de se casar com a Maria Emília.

Perante a recusa determinante de cumprir o que tinha sido proferido e determinado em tribunal, o mesmo tribunal foi mais objetivo e rigoroso ao mandar encarcerar, durante dois dias, na cadeia do Fundão, o José Maria, determinando que se fizesse nesse período, a cerimónia de casamento. 

Perante esta sentença, a cerimónia de casamento teve mesmo lugar, a 27 de dezembro de 1951, na capela da cadeia do Fundão, onde hoje estão as instalações da Guarda Nacional Republicana. Adivinha-se que tenha sido uma cerimónia muito constrangedora mas que terminou por resultar na união matrimonial de um casal que viria a destacar-se pelo número elevado de filhos concebidos. 

Esta cerimónia aconteceu no mês de dezembro de 1951, já a bebé Isabel tinha 7 meses. Dizia-se à boca pequena, que uma das ameaças que o José Maria terá proferido na ocasião, depois de ter sido obrigado a casar, era que, a partir daquela data a sua Maria, iria ter todos os anos um filho. Parece que, a ser verdade o que se dizia, foi dito e foi feito.

Como esta situação foi muito badalada na vila do Fundão, o José Maria foi trabalhar para Monfortinho, aldeia raiana do concelho de Idanha-a-Nova, para fugir à vergonha que a situação tinha gerado. A Emília não seguiu junto, só algumas semanas depois ela se juntou ao marido.


Foi sozinha na carreira (autocarro) com a trouxa com os seus haveres de da sua pequenina filha e, para surpresa dela, à chegada a Monfortinho, onde seria suposto estar o marido à sua espera, não havia ninguém. O motorista da carreira, notando a grande preocupação da jovem, tentou acalma-la, dizendo-lhe inclusivé que se o marido não estivesse na paragem seguinte ela a levava para sua casa para ficar com a sua mulher até tudo se resolver. Apesar da boa vontade do motorista, a Emília, sentiu-se verdadeiramente perdida, num local desconhecido, com a mala onde transportava a sua roupa e da bebé que carregava ao colo. Depois de algumas explicações a quem se estava a preocupar com a sua situação, percebeu que tinha saído da carreira no local errado. Na verdade, o marido estava à sua espera no local onde habitualmente as pessoas desembarcavam daquele transporte. Fazia-se acompanhar de dois empregados, a quem ensinava a arte de alfaiate e um burro para o transportar a bagagem da esposa e da filha.

Em Monfortinho a menina Emília, que tinha apenas 17 anos, era tratada como se de uma pessoa com mais idade se tratasse. Naquele tempo as mulheres usavam lenço e xaile, que as tornava parecendo mais velhas. As pessoas da aldeia quando se queriam dirigir a ela utilizavam expressões do género: Oh "Senhora Maria" a bebe ou a Maria Isabel está boa? Ou ainda: como as pessoas eram muito generosas, perguntavam: Oh Senhora Maria precisa de alguma coisa ou de alguma ajuda?

O José Maria, nosso pai, era um mestre na arte de alfaiate, uma profissão que ele adorava. O que fazia, costurando quase tudo à mão, (como se pode ver na foto ao lado) e muito bem confeccionado e por isso ia tendo muito trabalho que permitiu terem ficado durante uma boa temporada naquela localidade raiana.

Foi em Monfortinho que o casal concebeu o segundo filho, que viria a nascer no Fundão, para onde o casal havia regressado depois de se ter esfumado a vergonha que sobre eles se tinha abatido. O nascimento deste segundo filho ocorreu no Hospital da Misericórdia do Fundão, ao lado da Igreja Matriz, no dia 11 de novembro de 1952, dia de S. Martinho. 


A residência do casal passou a ser numa das pequenas casas que envolviam o Castelo dos Trigueiros, ao qual todos chamavam de largo do castelo. Foi, aliás, no largo do castelo, no Fundão, que todos os filhos do casal foram criados. 

O largo do castelo, que tinha o edifício acastelado no meio, uma capela no lado direito e logo a lado um lago com repuxo, que dava aquele espaço uma beleza invulgar, era composto, ao seu redor, por um casario, com pequenas e rudimentares moradias, onde viviam muitas famílias, algumas delas com agregados familiares muito grandes. Mais de 90% das moradias não tinha água canalizada, muito menos esgotos e não tinham iluminação elétrica. A água era recolhida com cântaros de uma fonte, com água que vinha de uma mina dos proprietários do castelo situado na quinta do ouro, na encosta do monte de S. Brás, na serra da gardunha, e os dejetos de todas aquelas pessoas eram despejados num tanque que se situava na parte de baixo desse largo do castelo, ao lado da separadora de minério que ali funcionava, em terreno dos mesmos proprietários.


As diferentes residências onde ao longo dos anos fomos morando eram rudimentares, abaixo do muito mau, sem água, sem esgotos, sem luz elétrica e com reduzidas dimensões. Na primeira dessas residências, por cima da separadora do minério que vinha das minas da panasqueira, só dispunham de duas divisões, separadas por taipas de madeira e cortinas. Ali viveu cerca de cinco anos. Na segunda, era composta de rés do chão e primeiro andar, mas apenas com uma divisão em cada andar. Um par de anos depois o casal alugou um anexo ao lado desta casa, que estava dividido por uma taipa de madeira. Viveram nestas condições por 10 anos, aproximadamente. Também neste caso sem possuírem água canalizada, esgotos ou eletricidade.

Neste conjunto de fotos, tiradas no Castelo, pode-se ver a mãe Emilia, a Zeza, a Milai, a Lena, o Paulo e o Rafa ao colo. No meio o Zéquim, a Be e a Fatinha. na última a Senhra Guilhermina, uma vizinha, a nossa mãe Emilia, o Rui a Fatinha e Gena ao colo.

Mais tarde, passaram para uma casa, com melhores condições. Esta já tinha cozinha, dois quartos, uma sala e uma casa de banho, apenas com sanita e lavatório e tinha eletricidade. Foi uma evolução fantástica, principalmente para quem nada disso teve durante tantos anos. Nesta época os nossos pais ficaram com as duas casas a primeira a servir de oficina do nosso pai, para onde foi esticado um cabo elétrico, desde a nova residência, para dotar as antigas instalações de eletricidade e a mais recente como nossa residência. 

Curiosamente, passados mais de 70 anos, a nossa mãe Emília ainda mora em instalações pertencentes aos proprietários do Castelo, mesmo ao lado da sua primeira habitação, mas agora com todas as condições .

Apesar de ter nascido num dia emblemático, no dia de S. Martinho, o padroeiro do Fundão, o nome do recém-nascido acabou por resultar da junção dos nomes do seu pai e do avô, que também passaria a ser o seu padrinho. Do pai José e do avô Joaquim, se atribuiu o nome de José Joaquim ao primeiro filho homem do casal, a quem passaram a chamar de Zé Quim. 


Como foi referiu, o padrinho deste segundo filho do casal foi o seu avô Joaquim Ribeiro (também conhecido por Joaquim Paulino) e a madrinha, sua avó, Maria Cândida, a quem poucas vezes se via um sorriso, mas que adorava o neto/afilhado e o levava para todo lado, fosse às compras, fosse a uma festa, nomeadamente ao S. Macário, no Alcaide, fosse quando tinha que levar as refeições ao marido, nas suas azáfamas de pastoreio.

Pelos relatos que se conhecem, o José Maria Ribeiro ficou tão feliz com o nascimento deste seu filho que não resistiu ir festejar com os amigos. Quando regressou a casa, completamente embriagado, só dizia que queria estar com o seu filho. 


O nascimento deste filho Zé Quim, que tanta felicidade proporcionou aos pais, não resolveu o mal-estar entre o casal. As desavenças eram diárias, havendo dias em que a agressão estava muito presente.





O avô, Joaquim Ribeiro era pastor, tinha a seu cargo cerca de uma centena de ovelhas, que tratava, guardava e ordenhava. Porque os pastos eram obtidos a troco do estrume que os animais produziam, tinha que procurar nas quintas que envolviam o Fundão as que ofereciam as melhores condições. As melhores condições eram aquelas que permitiam ter boas camas em curral coberto e devidamente fechado. Nestas condições o nosso avô tinha possibilidade de ir dormir a casa, mas, também se colocava a possibilidade de recolher as ovelhas, para dormir, num bardo, ao ar livre. Nesta situação o nosso avô tinha que dormir numa choça, que instalava ao lado do bardo, uma estrutura composta por três painéis em madeira, tipo cancela, cobertos com palha, tipo bivaque. Dentro era colocado uma enxerga (pequeno colchão ou cama rústica e pobre, geralmente feita de palha) e mantas de ourelos para se cobrir.

A nossa avó tinha a missão de fazer o queijo e de o vender. O rendimento do casal resultava da venda do queijo e dos borregos. O Avô ordenhava as ovelhas ao final da tarde, depois do recolher e voltava a ordenhar pela manhã, antes de voltarem para o pasto. O queijo era fantástico, quer em fresco, quer em meia cura ou curado. Nós gostávamos, particularmente, do soro que resultava da confecção dos queijos, (agora também conhecido por travia/requeijão). Era uma delicia, com doce de abóbora ou outro, ou mesmo só com açúcar amarelo.

A primeira vez que o Zé Quim uns sapatos pretos e de sola, habitualmente calçava botas e ou sapatos de couro e base de pneu no inverno ou sandálias no verão, o meu avô levou-me com ele ao mercado semanal do Fundão, que se realiza todas as segundas-feiras, a vender uma borrega (uma ovelha ainda jovem), no mercado do gado, que na altura se realizava junto da capela de Santo António no Fundão e depois fomos ao mercado do calçado, que se realizava onde hoje está o estacionamento dos taxis no Fundão, onde me comprou os referidos sapatos.

Na foto a Avó Cândida, o Zé Quim e a Fatinha 

Entretanto, um ano e 15 dias depois, dia 25 de novembro de 1953, a família aumentou com o nascimento de uma menina a quem deram o nome de Maria de Fátima, (Fatinha)


O nascimento da Maria de Fátima não foi nada benéfica para a nossa irmã mais velha, a Isabel, agora com 3 anitos, uma vez que, por não haver condições na habitação, que tinha apenas duas divisões, uma das quais separada por uma simples cortina e que não tinha as mínimas condições de higiene, por não ter água canalizada e esgotos, foi institucionalizada, no Preventório que a família da D. Isabel Trigueiros construiu à saída do Fundão, na estrada de Souto da Casa, uma instituição que estava a ser administrada pela diocese da Guarda, depois da família Trigueiros ter doado o edifício e toda a zona envolvente, em 1947, a D. João de Oliveira Matos, bispo auxiliar da diocese, ele que era natural de Valverde, do concelho do Fundão.


Como D. João de Matos já tinha fundado a Liga das Servas de Jesus, no Instituto de S. Miguel na Guarda em fevereiro de 1924, estas religiosas, que não usavam hábito de freiras para não darem nas vistas, numa altura muito conturbada e de perseguição ás instituições religiosas, nomeadamente às freiras, D. João de Matos entregou o cuidado e gestão da casa a estas religiosas que substituíram as irmãs religiosas de uma congregação espanhola que vinham gerindo o Preventório.

Nesta casa eram acolhidas crianças do sexo feminino do concelho do Fundão com problemas físicos, debilitadas, raparigas que já estavam a cargo de outras instituições e ou de famílias carenciadas.

Neste conjunto de fotos podemos ver a Bé com colegas no Colégio da Cerdeira do Côa, na segunda a Fatinha coma sua madrinha, também no Colégio da Cerdeira e na 3ª uma visita familiar ao Preventório, com a Tia Laura e a sua filha Lindinha, Vemos a Fatinha, o Zé Quim, a Bé e a Mª Laura uma prima nossa. O jovem é o nosso primo José Francisco

O Preventório do Fundão funcionava com cerca de 50 meninas que ali aprendiam a ser mulheres para enfrentar os desafios da vida. Os estudos, quando as raparigas indicavam ter mais capacidades, eram deslocadas para o Colégio da Cerdeira, na Cerdeira do Côa, no município do Sabugal, uma instituição ligada ao Instituto S. Miguel da Guarda, para frequentarem o 2º e 3º ciclo de escolaridade.


Entretanto, a Emília, que passou a ter a seu cargo dois filhos, um menino e uma menina, ficou, de novo gravida. Na parte final desta gravidez registou-se um período muito conturbado para a família uma vez que o marido, José Maria, que havia sido acometido de uma doença muito grave e contagiosa, a tuberculose, que o obrigou a ficar internado durante uma grande temporada no Sanatório dos Ferroviários nas Penhas da Saúde.

A Emília passou a ter apenas o apoio de seu pai, Manuel Bimba, nosso avô. foi um apoio fundamental neste período. A gravidez chegou ao fim no dia 8 de dezembro, dia de Nossa Senhora da Conceição, do ano 1954 e nascia mais uma menina a quem foi dado o nome de Conceição Maria, (São).


Em razão da situação do pai, esta 3ª menina que já seria o quarto descendente do casal, foi “doada” a José Francisco Bimba, tio avô da Maria Emília, nossa mãe. Na verdade, por se tratar de família direta, a "doação" foi pacifica,  uma vez que eram tios da Emília, e pessoas que estavam bem na vida. Assim, a Conceição Maria foi, ainda bebe, para a Labrugeira do concelho de Alenquer, onde foi criada como filha do casal, até aos 14 anos. Foi com esta idade que regressou a casa dos pais biológicos no Fundão.

Numa das várias visitas que a Emília fez ao sanatório dos ferroviários, para ver o marido, a visita não se terá ficado por isso mesmo, porque algo mais por lá aconteceu, visto que voltou a ficar gravida. Foi uma gravidez que teve que gerir sozinha, ainda que contasse com o apoio do seu pai. Esta gravidez resultou no nascimento de duas meninas, no dia 9 de fevereiro de 1956. Infelizmente, as gémeas acabaram por falecer, poucas horas depois de terem nascido. Uma delas ainda foi possível receber o sacramento do batismo, mas a outra já não houve tempo. A uma foi dado o nome de Maria de Lurdes e a outra Maria da Glória.

Esta ocorrência infeliz não aconteceu por acaso! A gravidez, por ter sido de gémeos, devia ter tido cuidados redobrados, só que a vida impunha outros requisitos e condições contrárias ás boas praticas que se deviam tomar. O episódio que a seguir vou contar poderá ter determinado o que acabou por aconteceu: na véspera do nascimento das gémeas, a 8 de fevereiro, a Emília achou que ainda tinha condições para ir para a Ribeira da Azenha Nova, lavar uma bacia de roupa. O mês de fevereiro ainda é um mês de inverno e de muito frio e, lavar a roupa na ribeira, com água gelada, não estaria ao alcance de qualquer uma, quanto mais de uma pessoa em final de gravidez. O facto é que a Emília, nossa mãe, regressou da ribeira, com a bacia de roupa à cabeça, mas totalmente enregelada, quase a ficar em hipotermia. Como não tinha ninguém em casa à sua espera que a pudesse ajudar, poucas horas depois deu entrada no hospital. O desfecho triste, no pós nascimento das gémeas, pode ter muito a ver com este episódio.


Entretanto, o José Maria, nosso pai, conseguiu curar-se da doença que o apoquentou e regressou a casa, definitivamente, 8 meses depois. (nos últimos meses de internamento, já vinha a casa, de quinze em quinze dias, para visitar os filhos). Nestas curtas visitas a casa, foi concebido mais um filho que havia de nascer a 26 de março de 1957, a quem foi dado o nome de Rui Manuel.



Foi um período de muitas necessidades e de extremas dificuldades. O único salário que permitia o sustento da família chegava a casa proveniente do trabalho do nosso pai, que, por estar internado, e não podendo trabalhar, criou um grave problema à nossa mãe. Foi valendo a ajuda do nosso avô Manuel e do que era possível vir de casa dos avós Joaquim Ribeiro e Maria Cândida.

Neste mesmo ano de 1957, e em razão da doença do pai, José Maria, a Fatinha (Maria de Fátima), foi institucionalizada no Preventório, juntando-se assim à sua irmã Bé (Isabel).


Durante o período em que permaneceu no Sanatório, o José Maria aproveitou para aprender a fazer bonitos guarda joias, em formatos e tamanhos diversos: quadrados, retangulares, redondos ou com feitio de coração. Fez os próprios moldes em papelão duro que depois cobria com tecido aveludado, de cores diversas, cobertos de lantejoulas, fitas ornamentais prateadas e douradas. Por dentro eram acolchoadas com tecido acetinado, de cores diversas.

Estes guarda-joias eram muito apreciados por ocasião das festividades da Páscoa. Havia uma tradição na nossa beira que se cumpria na 5ª feira Santa, dos namorados ou os padrinhos, oferecerem as amêndoas dentro deste tipo de guarda-joias, ás namoradas e ou afilhadas. 


O casal continuava a ter uma vida muito íntima e uma eficácia impressionante na concretização do aumento da família. 

Foi nessa sequência que acabou por acontecer o nascimento de mais um rapaz. No dia 19 de março do ano de 1958, menos de um ano depois de ter nascido o anterior filho, nascia mais um menino a quem deram o nome de João Gabriel.



Como a máquina estava montada e não podia haver falhas de produção, a 7 de maio de 1959 a Emília deu à luz uma nova menina a quem deram o nome de Maria José (Zeza).

Este dia 7 de maio ficou marcado por dois episódios que na altura não nos agradaram particularmente, mas que, recordando-os à distância, até lhe achamos alguma piada. Na primeira situação, o Zé Quim, o segundo filho do casal, foi brincar com uma vizinha, na quinta que ficava ao lado do castelo. A determinada altura o pai da amiga mandou-a cortar erva para alimentar as vacas – tinha duas leiteiras – naturalmente, ele foi com ela para a ajudar. Nesse dia tinha chovido muito na parte da manhã, como a erva estava encharcada, encharcado e cheio de frio chegou a casa. A mãe Emília, ao ver o estado em que vinha o filho, não só o repreendeu como ainda lhe deu uns bons acoites, metendo-o debaixo de umas mantas para se poder aquecer. O segundo episódio ocorreu ainda durante a tarde com um enxame de abelhas a invadir a zona da cozinha da casa de habitação, onde estava uma cama e onde dormiam os filhos. Estes tiveram que se cobrir com cobertores enquanto o pai, José Maria, tentava a todo custo retirar as abelhas de nossa casa. Uma hora depois ou pouco mais, a Emília dava entrada no hospital do Fundão para o parto da Maria José, a nossa Zeza.

O Zé Quim e a Fatinha. A Fatinha o Zé Quim e a Bé. O Rafa, o Paulo, a Lena, o JoãoToninho, a Milai e a Zeza


Em meados do ano de 1960, a Emília, a nossa mãe, que estava novamente grávida, e pela 9ª vez, viu essa gravidez interrompida em virtude de um aborto espontâneo, já com quatro meses de gestação.  Apesar do número de filhos gerados, a tristeza apoderou-se da família durante um certo período, mas, a maquina geradora de meninos não parou por aí.


Logo no inicio do ano de 1961, ocorre mais um nascimento, de novo uma menina. A 26 de janeiro de 1961, a quem foi dado o nome de Maria Eugénia, (Gena)

No ano seguinte, mas desta feita cumprindo dois meses de repouso entre nascimento e gravidez, nasceu, a 29 de março de 1963, um menino a quem foi dado o nome de João António.  Este menino foi acometido de uma doença que na época se chamava de Garotilho, mas que mais não era que Difteria. O garotilho / difteria é uma doença que resulta de uma infeção viral. O vírus causa inchaço nas vias respiratórias superiores envolvendo a laringe e traqueia. Em razão desta doença, para a qual, na altura não havia cura, este filho faleceu com seis meses de vida.


Neste ano de 1963, o Zé Quim, 2º filho do casal, quando ainda só tinha 10 anos, começou a trabalhar na Farmácia Albuquerque de Matos, na Rua Cardoso Avelino, hoje Rua 5 de outubro, tendo sido admitido no dia 20 de agosto deste ano. Com o objetivo de ajudar nas despesas da família, que cada vez era maior, entregava em casa os míseros 50 escudos de ordenado mensal. Sim, eram mesmo cinquenta escudos mensais, convertidos à moeda atual, seriam 25 cêntimos..

Neste mesmo ano de 1963, o filho Rui Manuel foi institucionalizado no Abrigo de S. José, quando tinha seis anos. Foi uma decisão precipitada, uma vez que a vaga que se abriu no abrigo era para o filho Zé Quim (José Joaquim), mas como este já tinha entrado no mercado de trabalho, aproveitou-se a vaga para o Rui fazer ali os seus estudos. Todos nós notamos a revolta que se apoderou dele e que o acompanhou para uma parte significativa da sua vida. A esta distância, achamos que foi uma decisão precipitada dos pais.


Entretanto, a família continuava a crescer, desta feita, nasceu mais uma rapariga a quem deram o nome de Maria Adelaide, (Milai) O parto aconteceu a 12 de abril de 1964.

O nome desta menina resulta do facto de ter sido convidada para madrinha a filha de Artur de Almeida Campos, dono da Estalagem da Neve, do café Cine e vários hotéis na Covilhã, Guarda, Castelo Branco e Penhas da Saúde, onde trabalhava o 2º filho do casal, Zé Quim (José Joaquim), que, entretanto, por razões de falta de idade teve que deixar de trabalhar na farmácia. 


A D. Adelaide, mais conhecida por Milai e que estava na altura a gerir, juntamente com o marido, aquele estabelecimento hoteleiro, depois de ter aceite o convite para madrinha, propôs que o nome da menina fosse igual ao seu, o que foi aceite.

E a nossa irmã é tratada e conhecida, igualmente, por Milai.


O Zé Quim com 11 anos, vestindo a farda de grumet, na Estalagem da Neve.


A 21 de agosto de 1965 o casal, José Maria e Emília, tiveram mais um filho, desta feita masculino, a quem deram o nome de João António, recuperando o nome do filho que entretanto havia falecido em 1963.

Com o crescer da família e sem que as condições de habitabilidade tivessem melhorado, neste ano de 1965 foi institucionalizada a filha Zeza (Maria José), no Preventório de D. Isabel Trigueiros. Juntava-se assim, às irmãs Bé (Isabel) e  Fatinha (Fátima), que, entretanto, já tinham sido transferidas para o colégio da Cerdeira, onde prosseguiram os estudos de 2ª e 3º ciclo.


Apesar das dificuldades que a família enfrentava, esta não parava de crescer. Não havia forma de parar uma máquina que se mantinha oleada e muito bem oleada. Foi no seguimento desse princípio que se gerou mais um ser vivo que haveria de nascer a 15 de outubro de 1966. Foi uma menina a quem deram o nome de Maria Helena (Lena). Era a 14ª ou, se juntarmos o aborto ocorrido em 1959, bem podia ser a 15ª de uma família demasiado grande e que não ficaria por aqui.


A 20 de outubro de 1967, num dia de feira anual de S. Mateus no Fundão, a Emília deu à luz mais uma menina a quem eram o nome de Maria Rosa. Infelizmente, esta criança viria a perecer, alguns dias depois do nascimento, nunca se chegando a perceber a razão da sua morte.

A compensação não tardou e, a 21 de setembro de 1968 nascia o Paulo Jorge, um rapaz que passou a ser o 17º da linhagem.

Neste mesmo ano a Gena (Maria Eugénia), então com cinco anos, foi, também ela institucionalizada, no Preventório, juntando-se irmã Maria José. As irmãs Isabel e Fátima, com 17 e 15 anos estavam a completar os estudos para se integrarem no mercado de trabalho.

Nesta foto, ao lado da nossa casa, numa barraca onde se guardava a lenha para a lareira, pede ver-se o nosso pai José Maria, a nossa mãe Emília e os filhos, Zé Quim Bé, São, João Gabriel, Rui, Zeza, Gena, Milai, João Toninho, Lena e Paulo. Na outra, tirada nas escadas da entrda do Castelo, estão o pai e mãe, a Bé, Zé Quim, Fatinha, São, o Rui, o João Gabriel, três vizinhas e ainda a Milai, João Toninho e a Lena.

A 14 de dezembro de 1969, nasceu mais um rapaz, a quem foi dado o nome de Carlos Alberto. Este bebe nasceu prematuro, com apenas 7 meses de gestação, tendo sido colocado, por isso, numa incubadora. Mas o inimaginável acabou por acontecer. No hospital do Fundão só havia uma incubadora, como, entretanto, nasceu uma outra criança prematura de um casal que ainda não tinha filhos, a administração do hospital decidiu que, tendo em consideração que a família Ribeiro já tinha muitos filhos, este iria deixar a incubadora para entrar a outra criança. Naturalmente, o filho da Emília e do José Maria, não conseguiu resistir e faleceu. Eram tempos muito difíceis e com recursos muito limitados.

Neste mesmo ano, a Milai (Maria Adelaide) foi institucionalizada, no Preventório, juntando-se às irmãs Zeza (Maria José) e Gena (Maria Eugénia).


No dia 31 de janeiro de 1970, nasceu outro rapaz. A este deu-se o nome de Carlos Rafael (Rafa). Como no hospital do Fundão tinha deixado de funcionar a maternidade, nós próprio, então com 17 anos de idade, tivemos que alugar um táxi para transportar a Emília, nossa mãe, ao Hospital da Covilhã. O pai tinha que ficar a tomar conta dos restantes filhos, ainda bebes, só que neste dia caiu um nevão de grandes proporções na cidade da Covilhã que impediu que o táxi conseguisse chegar ao hospital. Foi uma luta terrível contra o tempo, visto as contrações estarem cada vez mais aceleradas.  Foi necessário recorrer à GNR, que na altura tinha o seu posto mesmo em frente à estação de caminho de ferro. Até aí o táxi conseguiu chegar, por que era tudo a descer. A GNR, e os seus soldados, graduados e praças, foram muito simpáticos e prontamente nos asseguraram o transporte e lá nos fizeram chegar ao hospital através de um dos seus jeeps. O hospital da Covilhã, na altura, ficava no ponto mais alto da cidade, de difícil acesso a viaturas ligeiras, sem tração, numa situação de nevão.


No ano de 1971, a Emília teve um aborto espontâneo, com cerca de cinco meses de gestação, para compensar, no ano seguinte, dia 6 de novembro de 1972, nascia o caçula da família. A este último filho, o casal deu-lhe o nome de Luís Miguel.

Numa aritmética rudimentar, porque vamos somar as gravidezes que acabaram por resultar em abortos, diria que das 20 gravidezes que o casal José Maria e Maria Emília conceberam, teriam resultado 21 “seres”, dos quais pereceram sete, tendo, ainda assim, criado, sete raparigas e sete rapazes, todos muito perfeitos e muito amigos entre si.

Entre tantos filhos, teve que haver muita imaginação para dar nomes a todos. As raparigas todas tinham Maria no seu Nome, nos rapazes o nome João apareceu por três vezes e Carlos por duas vezes.


O José Maria Ribeiro, o nosso pai, era um homem com uma pose extraordinária, muito bem parecido, mas era, também, um homem austero, muito ríspido e por vezes agressivo, mas, ao mesmo tempo,  com um coração de manteiga. Tratou muito mal a sua esposa, nossa mãe, nos primeiros anos de casados e também não a tratou bem numa fase intermédia da sua vivência como casal. Nunca terá perdoado terem-no obrigado a casar. Pelos filhos também tinha comportamentos de alguma agressividade, principalmente com os mais velhos (Os últimos cinco ou seis filhos já não conheceram esta faceta do nosso pai) no entanto, fazia tudo, ainda que não parecesse, por cada um deles. 

Quando se lhe pedia alguma coisa a primeira resposta que dava era não, mas depois, havendo possibilidades, lá satisfazia os pedidos de cada um. Era muito sentimental em muitas e determinadas situações e facetas familiares. As lagrimas chegavam aos seus olhos com uma facilidade impressionante. 

A beiça de choro e as lagrimas corriam-lhe pela face com muita facilidade. Sem qualquer tipo de contradição, pelo que antes foi relatado, os filhos, eram o seu orgulho maior e a única coisa na vida que o fazia sofrer a bem sofrer. Lembro o que ele sofreu quando a filha mais velha, Isabel, foi trabalhar para a Suíça e quando as filhas Maria José e Maria Eugénia emigraram para a Checoslováquia, em busca de melhor vida, parecia que o mundo se tinha desmoronado. Por via disso, o seu coração começou a dar problemas. 


As questões emocionais e sentimentais aumentaram significativamente e logo se transformaram em problemas cardíacos, quando o seu filho mais velho, José Joaquim, que estava na tropa, foi mobilizado e teve que ir para Angola, para a guerra no ultramar.

Foi um pai que exigiu, sempre, princípios de dignidade e honestidade a todos os filhos. Incutiu em todos nós uma filosofia de vida exemplar com princípios de boa educação, para com a família e para com todas as pessoas que se cruzassem conosco. Para o nosso pai era fundamental ter comportamentos cívicos, de educação e respeito pelo próximo e ser honestos em todas as situações da nossa vida. Ensinou-nos a não gastar mais do que aquilo que podíamos e, em termos muito pessoais, que podia servir de exemplo para cada um de nós, ele não comprava nada, mesmo que tivesse muita vontade, se não tivesse dinheiro para o pagar a pronto. 

Era um homem que usava termos que só da sua boca se podiam ouvir. “Os meus Parrafois” era o termo carinhoso que usava para falar de nós, os filhos, a outras pessoas, ou, "seu filho duma grandesíssima regalada alta e baixa rebola caixotes", quando queria repreender algum de nós, ou, "filho da ti mari balbina e  do ti jaquim changoto" quando a repreensão tinha que ser mais suave. Outros exemplos, não são muito apropriados para serem aqui expostos, ainda que eu os use com frequência.

Era um pai que se preocupava com todos os problemas, inclusive, prevendo o futuro. Naquela época ele sabia que os filhos homens tinham que servir o pais, como militares, uma vez que o pais estava em guerra com as colónias, que exigiam a independência e com essa preocupação providenciou um mealheiro, sem que nós tivéssemos conhecimento, reservando uma parte do nosso ordenado para quando mais precisássemos. Quando o Zé Quim entrou no serviço militar, a 7 de agosto de 1973, sentimos essa necessidade. Valeu-nos aquela sua decisão e preocupação, principalmente enquanto estivemos em Portugal continental.


O nosso pai deixou-nos no dia 24 de abril de 1979, com 53 anos de vida, ainda com seis filhos menores, depois de lhe terem dado duas tromboses, a última das quais fatal.

A Maria Emília, nossa mãe, foi uma heroína, é nossa heroína!



Ela é o nosso maior orgulho, não apenas pelo que passou na vida, mas, e sobretudo, pelo que nos deu e ainda nos continua a dar, de carinho, amor e mimos, que só as mães sabem dar.

Passou as passas do algarve na meninice, na sua adolescência e no próprio casamento. Do marido e de alguns familiares do marido, recebia reprovações, por vezes agressões e algum desprezo. O marido sempre teve dificuldade em a aceitar como esposa.

Sofreu muito com a perda de alguns dos filhos que pereceram precocemente, sofreu com a saída das filhas e do filho, para o colégio, ainda que soubesse que era o melhor para elas e para ele, sofreu com as que tiveram que emigrar, sofreu por não poder dar aos filhos tudo o que ela achava que eles mereciam.

Criou os filhos com grandes dificuldades, mesmo quando ainda tinha a seu lado o marido e, depois de ter ficado viúva, soube governar a vida com os fracos recursos financeiros de que dispunha, não esquecendo que seis dos filhos eram menores. Manteve os filhos a estudar, mesmo nos piores momentos de dificuldade e conseguiu manter uma família, de tamanho desmedida, completamente unida.

Possuída de uma inteligência rara, a Emília, nossa mãe, conseguiu, à sua maneira, encaminhar os filhos para projetos de vida com educação e honradez. Hoje é uma mãe orgulhosa dos seus filhos, dos seus 18 netos e dos seus 13 bisnetos.


A Dona Emília, que nunca foi à escola, insistiu para que cada filho ou neto conseguisse obter a melhor qualificação escolar possível. Orgulha-se de ter netos licenciados, formados em muitas e variadas áreas de atividade e orgulha-se de saber que todos estão bem na vida e bem integrados na sociedade. Tem uma neta atriz, um economista, um farmacêutico, uma Assistente Social, um Animador Cultural, uma Médica, uma vitrinista, uma Jurista, uma técnica de informática, uma bióloga, um arquiteto e outros em conclusão de estudos e diversas profissões. Todos eles são o seu maior orgulho.

Durante cerca de 20 anos, era um filho no colo, outro pela mão e outro na barriga.


Os 14 filhos que conseguiu criar e educar, só podem estar gratos pelos ensinamentos, pelos princípios que nos foram incutidos e, principalmente, pelas pequenas coisas da vida, pois foram elas que fizeram a vida grandiosa de todos nós.

Foto no casamento do nosso irmão Rui, com todos os 14 irmãos e nossa mãe

Pessoalmente, agradeço cada mimo, cada carinho, cada bênção, mas também, cada ralhete ou mesmo, cada palmada que recebi na hora certa e que contribuíram para a minha forma de estar na vida.


7 FILHAS: Mª Isabel, Mª Fátima, Conceição Mª, Mª José, Mª Eugénia, Mª Adelaide e Mª Helena 






19 netos: Luciana, Rui Pedro, Ana Filipa, Pedro Daniel, Nuno, Raquel, Sandra, Ricardo, David, Catarina, Alberto, André, Daniela, Igor, Beatriz, Joana, Carolina, João Diogo e Maxwel Gabriel.



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