Aquela que nos pariu !



O texto que se segue, de minha autoria, resulta de uma pesquisa que fui fazendo ao longo dos anos, recolha de testemunhos com a principal visada, a nossa mãe, e outras evidências que todos nós conhecemos e ou vivenciamos.

Mãe há só uma é esta e mais nenhuma!!!!

A nossa mãe, que teve 19 filhos e ainda dois abortos, passou ¼ de século da sua vida de “esperanças”.

Foi mãe pela primeira vez com 17 anos, tendo ficado grávida com 16 aninhos, uma verdadeira criança ou adolescente, que terá sido “enganada” por um homem com mais 12 anos.


A menina, com corpo de mulher, embeiçou-se pelo marmanjo, um fulano já vivido e quase trintão e, aquilo que começou por ser uma brincadeira, com um sorriso para aqui e outro para ali, com o aproximar de corpos cada vez mais quentes, com uns beijinhos roubados e outros não roubados e mais frequentes, era de prever o pior. Com toda esta envolvência, era previsível o que acabou por acontecer, ou seja, as coisas começaram a tomar proporções mais sérias e o inevitável aconteceu mesmo. A vida da menina Emília, que não tinha sido fácil até aqui mais difícil ficou a partir do momento que tomou conhecimento de que havia ficado gravida do seu primeiro rebento.

Pode dizer-se que a vida nunca lhe mostrou aquele sorriso generoso e sublime a que tinha direito; nunca pôde desfrutar da felicidade que outros jovens, da sua idade, usufruíam; nunca foi, na verdadeira aceção da palavra, uma menina. Fez-se uma jovem moça quando ainda devia andar a brincar com bonecas, tornou-se adulta quando ainda nem tinha chegado à puberdade, chegou a mulher repentinamente, com consequências desastrosas. Sonhar terá sido das poucas coisas de que podia desfrutar, concretizar esses sonhos em realidade é que foi mais difícil.

Apesar de toda uma vida de amarguras, na meninice, na adolescência e no casamento, terá descoberto que o seu maior feito foi ter colocado no mundo cada um dos seus rebentos. Foram experiências sofridas, mas que lhe enchiam a alma, abriam-lhe o coração e lhe proporcionava maravilhosos e agradáveis sorrisos de orelha a orelha. Foram os filhos que lhe causaram as maiores alegrias, mas também, as maiores preocupações. Foram os filhos e mais tarde os netos que lhe concederam uma vivencia familiar que não teve durante muitos anos da sua vida.

A menina Emília era filha de um casal com fracos recursos financeiros, podendo dizer-se que eram recursos mínimos de sobrevivência. 

Ele, Manuel Manteigas Bimba, era sapateiro, e para colocar pão na mesa dos filhos teve que calcorrear muitos quilómetros e localidades para conseguir exercer a sua profissão e ela, Maria de Jesus Nunes Santos, era doméstica e ocupava-se dos três filhos do casal mais um outro de anterior relação. O casal vivia numa casa muito modesta, numa quelha muito estreita que dava para a rua da cale e para o largo de S. Francisco.

Mas se a vida com os dois progenitores era muito débil, pior ficou quando a Maria de Jesus morreu, em 1938, e deixou nos braços do Manuel, duas filhas, uma com cinco, a Maria Emília, nascida a 24 de outubro de 1933, outra com três anos, Maria de Lurdes, nascida a 21 de janeiro de1936 e um bebé com 16 meses, Francisco, nascido a 24 de janeiro de 1937.



Apesar de viver com dificuldades e ter pouco tempo para as tarefas familiares e profissionais, sempre arranjava um tempinho para exercer uma função que muito prazer lhe dava. A musica foi fazendo parte da sua vida, e por isso, sempre integrou as bandas filarmónicas da vila do Fundão. Primeiro na Banda Velha, como lhe chamavam, e depois na banda Nova. O Manuel Bimba, nosso avô, tocava caixa nessas bandas.

Sem ter um trabalho fixo ou mesmo uma residência fixa, o Manuel Bimba teve que se desdobrar, entre o trabalho, que tanto podia ser exercido no Fundão, nas Donas ou mesmo em Alcains e o criar os três filhos, ainda crianças.  As ajudas não eram muitas, mas uma delas veio na hora certa e a propósito. A Maria de Lurdes foi adotada por uma família abastada de Castelo Novo. A família Falcão sempre tratou a Maria de Lurdes muito bem, foi de lá que saiu para se casar, ainda que, quando esta passou a ter idade para trabalhar, ela passou a ser, na verdadeira aceção da palavra, a empregada domestica da casa.

Manuel Manteigas Bimba - musico na banda velha


O Manuel Bimba ficava, assim, com a Emília e o Francisco. A Emília, com os seus cinco anitos é que tratava do irmão. Alimentava-o, mudava lhe as fraldas, brincava com dele e levava-o a casa de uma senhora, esposa do Senhor Santos Marques, um comerciante de ferragens no Fundão, com estabelecimento na Rua da Cale, que tinha um filho com a mesma idade, para que lhe desse a mama e ou outra alimentação.

Esta era uma rotina diária enquanto a residência foi no Fundão, mas como o trabalho do pai podia estar aqui ou ali, tudo mudava muito depressa. Nas Donas, onde viveram uma boa temporada, as rotinas foram, necessariamente alteradas e as ajudas dos residentes/vizinhos nesta localidade, numa primeira fase, não se revestiam de grandes préstimos, mas depois lá apareceram as pessoas mais bondosas a prestar apoio e a proteger as duas crianças. Era um tempo de grande miséria, que a todos atingia. Numa ocasião, a jovem Emília, agora com seis anitos, foi à ribeira para lavar alguma roupa, dela própria, do irmão e de seu pai, uma daquelas vizinhas que em vez de ajudar só desajudam, sugeriu à jovem que estendesse a roupa e que, enquanto secava, fosse brincar, prometendo-lhe que ela própria tomava conta da roupa.  Acreditando na bondade da vizinha, a inocência é mesmo assim, lá foi ela a brincar. Quando regressou verificou que lhe tinham roubado a roupa. Para quem pouco ou nada tinha ter ficado sem a roupa que tanto lhe tinha custado a lavar e, principalmente obter, a tristeza e a revolta foram imensas. Não foi fácil explicar ao pai o que lhe tinha acontecido.

Quando a Emília fez 9 anos, um casal que morava em Lisboa, prontificou-se a leva-la com eles, com a promessa de que a iriam tratar como família. O pai Manuel aceitou a proposta, visto que deixava de ter uma boca para comer, para vestir e para cuidar. A Emília lá seguiu para Lisboa com muitas esperanças de melhor vida. Mas, aquilo que devia ter sido uma integração na família, não passou de obterem uma mão de obra barata. A jovem Emília é que tinha que fazer todo o trabalho de casa e quanto mais velha ficava, mais exigências eram feitas, pela “família” de acolhimento. Na verdade, a Emília não passava de um jovem sopeira, como antigamente se chamavam as empregadas domésticas, neste caso, sem receber qualquer compensação pelo serviço prestado. O trabalho era pago pela alimentação que ajudava a confecionar e pela roupa lavada, que ela própria lavava.

Como a experiência lisboeta não correspondeu ao que estava previsto e tinha sido combinado, a Emília regressou ao Fundão, quando tinha 11 anos. Servir por servir, era preferível faze-lo na sua terra onde tinha o seu pai e o seu irmão como amparo.

A Emília, por via da necessidade de ter que tratar do irmão, numa primeira fase e ter ido trabalhar para Lisboa, posteriormente, nunca lhe conseguiram arranjar tempo para a mandarem à escola, para dessa forma se instruir. A escola, naquele tempo era quase reservada aos rapazes. Sem qualificação, foi servir para casa da família Teixeira, como empregada doméstica. Não ganhava muito, mas ganhava alguma coisa e sabia que estava ali como criada e não como suposta família, que não era.

Como já foi referido, aos 16 anos a Emília ficou gravida de um homem 12 anos mais velha que ela. Foi uma desgraça para ela. O José Maria Ribeiro, nosso pai, um alfaiate que trabalhava na oficina (hoje seria atelier) da alfaiataria Freire, na rua do cale, “enganou” a jovem e começou por não assumir a responsabilidade do ato praticado pelo dois. A jovem era menor e essa situação mais complicada ficou quando a 22 de maio de 1951, então com 17 anos, deu à luz uma menina a quem deram o nome de Maria Isabel Santos Bimba.

O José Maria Ribeiro, nosso pai, mantinha a sua decisão de não assumir a responsabilidade de ter sido pai e tão pouco aceitou perfilhar a criança.

Esta situação foi constrangedora e muito desagradável para ambos e também para a criança, que não tinha culpa do ato que os pais tinha cometido. Perante um impasse que não se resolvia, a justiça começou a fazer o seu trabalho e, o tribunal obrigou o José Maria a casar com a Maria Emília.

Como não havia forma de se resolver o problema, apesar da decisão do tribunal, o mesmo tribunal tomou a decisão de mandar encarcerar, na cadeia do Fundão, o José Maria e determinou que se fizesse, na própria cadeia, a cerimónia de casamento. Assim foi. Na capela da cadeia do Fundão, onde hoje estão as instalações da Guarda Nacional Republicana, teve lugar a união matrimonial, de um casal que viria a destacar-se pelo número elevado de filhos concebidos. Esta cerimónia aconteceu no mês de dezembro de 1951, já a bebé Isabel tinha 7 meses. Diz-se à boca pequena, que uma das ameaças que o José Maria terá feito, depois de ter sido obrigado a casar, era que, a partir daquela altura a sua Maria, iria ter todos os anos um filho. Parece que foi dito e foi feito.

Como esta situação foi muito badalada na vila do Fundão, o José Maria foi trabalhar para Monfortinho, para fugir à vergonha que a situação tinha gerado. A Emília não seguiu junto, só algumas semanas depois ela se juntou ao marido.



Foi sozinha na carreira e, para surpresa dela, à chegada não estava lá o seu marido. Sentiu-se perdida, com a mala onde transportava a sua roupa e da bebé que carregava ao colo, até que alguém a questionou. Lá explicou a situação e foi aí que percebeu que tinha saído da carreira no local errado. Na verdade, o marido estava à sua espera no local onde habitualmente as pessoas saiam daquele transporte.

Em Monfortinho a menina Emília, que tinha apenas 17 anos, era tratada como se de uma pessoa com mais idade se tratasse. As pessoas quando se queriam dirigir a ela utilizavam expressões do género: Oh senhora Maria a bebe ou a menina está boa? Como as pessoas eram muito generosas, perguntavam: Oh senhora Maria precisa de alguma coisa ou ajuda?

O José Maria, nosso pai, era um mestre na arte de alfaiate. O que fazia, costurando tudo à mão, era muito bem feito e por isso ia tendo muito trabalho e permitir terem ficado durante uma temporada naquela localidade raiana.

Foi em Monfortinho que o casal concebeu o segundo filho, mas que viria a nascer no Fundão, para onde o casal regressou depois de se ter esfumado a vergonha que sobre eles se tinha abatido. O nascimento deste segundo filho ocorreu no Hospital da Misericórdia do Fundão, ao lado da Igreja Matriz, no dia 11 de novembro de 1952, dia de S. Martinho. A morada do casal passou a ser no largo do castelo.

Apesar de ter nascido num dia emblemático, no dia do padroeiro do Fundão, o nome do recém-nascido acabou por resultar da junção dos nomes do pai e do avô, que também passaria a ser o seu padrinho. Do pai José e do avô Joaquim, se atribuiu o nome de José Joaquim ao primeiro filho homem do casal. 


Como foi referiu o padrinho deste segundo filho do casal foi o seu avô Joaquim Ribeiro e a madrinha a sua avó, Maria Cândida a quem nunca niguém via um sorriso, mas que adorava o neto/afilhado e o levava para todo lado, fosse às compras, fosse a uma festa, nomeadamente ao S. Macário, no Alcaide, fosse quando tinha que levar a refeição ao marido.

Pelos relatos que se conhecem, o José Maria Ribeiro ficou tão feliz com o nascimento deste seu filho que não resistiu ir festejar com os amigos. Quando regressou a casa, completamente embriagado, só dizia que queria estar com o seu filho. 

O nascimento deste filho, que tanta felicidade proporcionou aos pais não resolveu o mal-estar entre o casal. As desavenças eram diárias, havendo dias em que a agressão estava muito presente.

Entretanto, um ano e 15 dias depois, dia 25 de novembro de 1953, a família aumentou com o nascimento de uma menina a quem deram o nome de Maria de Fátima.

O nascimento da Maria de Fátima não foi nada benéfico para a sua irmã mais velha, a Isabel, agora com 3 anitos, uma vez que, por não haver condições na habitação, que tinha apenas duas divisões, uma das quais separada por uma simples cortina e que não tinha as mínimas condições de higiene, por não ter água canalizada e esgotos, foi institucionalizada, no Preventório que a família da D. Isabel Trigueiros contruiu à saída do Fundão, na estrada de Souto da Casa, uma instituição que estava a ser administrada pela diocese da Guarda, depois da família Trigueiros ter doado o edifício e toda a zona envolvente, em 1947, a D. João de Oliveira Matos, bispo auxiliar da diocese, ele que era natural de Valverde, do concelho do Fundão.

Como D. João de Matos já tinha fundado a Liga das Servas de Jesus, no Instituto de S. Miguel na Guarda em fevereiro de 1924, estas religiosas, que não usavam hábito de freiras para não darem nas vistas, numa altura muito conturbada e de perseguição ás instituições religiosas, nomeadamente às freiras, D. João de Matos entregou o cuidado e gestão da casa a estas religiosas que substituíram as irmãs religiosas de uma congregação espanhola que vinham gerindo o Preventório.

Nesta casa eram acolhidas crianças do sexo feminino do concelho do Fundão com problemas físicos, debilitadas, raparigas que já estavam a cargo de outras instituições e ou de famílias carenciadas.

O Preventório do Fundão funcionava com cerca de 50 meninas que ali aprendiam a ser mulheres para enfrentar os desafios da vida. Os estudos, quando as raparigas indicavam ter mais capacidades, eram deslocadas para o Colégio da Cerdeira, na Cerdeira do Côa, no município do Sabugal, uma instituição ligada ao Instituto S. Miguel da Guarda, para frequentarem o 2º e 3º ciclo de escolaridade.

Entretanto, a Emília, que passou a ter a seu cargo dois filhos, um menino e uma menina, ficou, de novo gravida. Na parte final desta gravidez registou-se um período muito conturbado para a família uma vez que o marido, que havia sido acometido de uma doença muito grave e contagiosa, a tuberculose, que o obrigou a ficar internado durante uma grande temporada no Sanatório dos Ferroviários nas Penhas da Saúde.

O apoio de seu pai, Manuel Bimba, nosso avô, foi fundamental neste período. A gravidez chegou ao fim no dia 8 de dezembro, dia de Nossa Senhora da Conceição, do ano 1954 e nascia mais uma menina a quem foi dado o nome de Conceição Maria.



Em razão da situação do pai, esta 3ª menina que já seria o quarto descendente do casal, foi “doada” a uma família que tinha ligação ao pai da Maria Emília, nossa mãe. Na verdade, eram tios da Emília, ainda que em segundo grau. Assim, a Conceição Maria foi, ainda bebe, para a Labrugeira do concelho de Alenquer, onde foi criada como filha do casal, até aos 14 anos. Foi com esta idade que regressou a casa dos pais biológicos no Fundão.

Numa das várias visitas que a Emília fez ao sanatório dos ferroviários, para ver o marido, a visita não se terá ficado por isso mesmo, porque algo mais por lá aconteceu, visto que voltou a ficar gravida. Foi uma gravidez que teve que gerir sozinha, ainda que contasse com o apoio do seu pai. Esta gravidez resultou no nascimento de duas meninas, no dia 9 de fevereiro de 1956. Infelizmente, as gémeas acabaram por falecer, poucas horas depois de terem nascido. Uma delas ainda foi possível receber o sacramento do batismo, mas a outra já não houve tempo. A uma foi dado o nome de Maria de Lurdes e a outra Maria da Glória.

Esta ocorrência infeliz não ocorreu por acaso! A gravidez, por ser de gémeos, devia ter tido cuidados redobrados, só que a vida impunha outros requisitos e condições contrárias ás boas praticas que se deviam tomar. O episódio que a seguir vou contar poderá ter determinado o que acabou por aconteceu: na véspera do nascimento das gémeas, a 8 de fevereiro, a Emília achou que tinha que ir para a Ribeira da Azenha Nova, lavar uma bacia de roupa. O mês de fevereiro ainda é um mês de inverno e de muito frio e lavar a roupa na ribeira, com água gelada, não estaria ao alcance de qualquer uma, quanto mais de uma pessoa em final de gravidez. O facto é que a Emília regressou da ribeira, com a bacia de roupa à cabeça, mas totalmente enregelada, quase a ficar em hipotermia. Como não tinha ninguém em casa à sua espera e que a pudesse ajudar, poucas horas depois deu entrada no hospital. O desfecho triste, no pós nascimento das gémeas, pode ter muito a ver com este episódio.



Entretanto, o José Maria, nosso pai, conseguiu curar-se da doença que o apoquentou e regressou a casa, definitivamente, 8 meses depois. (nos últimos meses de internamento, já vinha a casa, de quinze em quinze dias, para visitar os filhos). Nestas curtas visitas a casa, foi concebido mais um filho que havia de nascer a 26 de março de 1957, a quem foi dado o nome de Rui Manuel.




Foi um período de muitas necessidades e de extremas dificuldades. O único salário que permitia o sustento da familia chegava a casa proveniente do trabalho do nosso pai, que, por estar internado, e não podendo trabalhar, criou um grave problema à nossa mãe. Foi velendo a ajuda do nosso avô Manuel e do que era possível vir de casa dos avós Joaquim Ribeiro e Maria Cândida.

Neste mesmo ano de 1957, e em razão da doença do pai, José Maria, a Maria de Fátima, foi institucionalizada no Preventório, juntando-se assim à sua irmã Isabel.


Durante o período em que permaneceu no Sanatório, o José Maria aproveitou para aprender a fazer bonitos guarda joias, em formatos e tamanhos diversos: quadrados, retangulares, redondos ou com feitio de coração. Fez os próprios moldes em papelão duro que depois cobria com tecido aveludado, de cores diversas, cobertos de lantejoulas, fitas ornamentais prateadas e douradas. Por dentro eram acolchoadas com tecido acetinado, de cores diversas.

Estes guarda-joias eram muito apreciados por ocasião das festividades da Páscoa. Havia uma tradição na nossa beira que se cumpria na 5ª feira Santa, dos namorados ou os padrinhos, oferecerem as amêndoas dentro deste tipo de guarda-joias, ás namoradas e afilhadas. 


O casal continuava a ter uma vida muito íntima e com uma eficácia impressionante na concretização do aumento da família. 

Foi nessa sequência que acabou por acontecer o nascimento de mais um rapaz. No dia 19 de março do ano de 1958, menos de um ano depois de ter nascido o anterior filho, nascia mais um menino a quem deram o nome de João Gabriel.



Como a máquina estava montada e não podia haver falhas de produção, a 7 de maio de 1959 a Emília deu à luz uma nova menina a quem deram o nome de Maria José.

Este dia 7 de maio ficou marcado por dois episódios que na altura não nos agradaram particularmente, mas que, recordando-os à distância, até lhe achamos alguma piada. No primeiro, o José Joaquim, o segundo filho do casal, foi brincar com uma vizinha, na quinta que ficava ao lado do castelo. A determinada altura o pai da amiga mandou-a cortar erva para alimentar as vacas – tinha duas leiteiras – naturalmente, ele foi com ela para a ajudar. Nesse dia tinha chovido muito na parte da manhã, como a erva estava encharcada, encharcado e cheio de frio chegou a casa. A mãe Emília, ao ver o estado do filho, não só o repreendeu como ainda lhe deu uns bons acoites, metendo-o debaixo de umas mantas para se poder aquecer. O segundo episódio ocorreu ainda durante a tarde com um enxame de abelhas a invadir a zona da cozinha da casa de habitação, onde estava uma cama e onde dormiam os filhos. Estes tiveram que se cobrir com cobertores enquanto o pai, José Maria, tentava a todo custo tirar as abelhas de casa. Uma hora depois ou pouco mais, a Emília dava entrada no hospital para o parto da Maria José.

Em meados do ano de 1960, a Emília, a nossa mãe, que estava novamente grávida, e pela 9ª vez, viu essa gravidez interrompida em virtude de um aborto espontâneo, já com quatro meses de gestação.  Apesar do número de filhos gerados, a tristeza apoderou-se da família durante um certo período,


Logo no inicio de anos de 1961, ocorre mais um nascimento, de novo uma menina. A 26 de janeiro de 1961, a quem foi dado o nome de Maria Eugénia.

No ano seguinte, mas desta feita cumprindo dois meses de repouso entre nascimento e gravidez, nasceu, a 29 de março de 1963, um menino a quem foi dado o nome de João António.  Este menino foi acometido de uma doença que na época se chamava de Garotilho, mas que mais não era que Difteria. O garotilho / difteria é uma doença que resulta de uma infeção viral. O vírus causa inchaço nas vias respiratórias superiores envolvendo a laringe e traqueia. Em razão desta doença, para a qual, na altura não havia cura, este filho faleceu com seis meses de vida.


Neste ano de 1963, o 2º filho do casal, quando ainda só tinha 10 anos, começou a trabalhar na Farmácia Albuquerque de Matos, tendo sido admitido no dia 20 de agosto deste ano. Com o objetivo de ajudar nas despesas da família, que cada vez eram maiores, entregava em casa os 50 escudos de ordenado mensal.

Neste mesmo ano de 1963, o filho Rui Manuel foi institucionalizado no Abrigo de S. José, quando tinha seis anos. Foi uma decisão precipitada, uma vez que a vaga que se abriu no abrigo era para o filho José Joaquim, mas como este já tinha entrado no mercado de trabalho, aproveitou-se a vaga para o Rui fazer ali os seus estudos. Todos nós notamos a revolta que se apoderou dele e que o acompanhou para uma parte significativa da sua vida, com esta decisão dos pais.


Entretanto, a família continuava a crescer, desta feita, nasceu mais uma rapariga a quem deram o nome de Maria Adelaide. O parto aconteceu a 12 de abril de 1964.

O nome desta menina resulta do facto de ter sido convidada para madrinha a filha de Artur de Almeida Campos, dono da Estalagem da Neve, do café Cine e vários hotéis na Covilhã, Guarda, Castelo Branco e Penhas da Saúde, onde trabalhava o 2º filho do casal, José Joaquim, que, entretanto, por razões de falta de idade teve que deixar de trabalhar na farmácia. 


A D. Adelaide, mais conhecida por Milai e que estava na altura a gerir, juntamente com o marido, aquele estabelecimento hoteleiro, depois de ter aceite o convite para madrinha, propôs que o nome da menina fosse igual ao seu, o que foi aceite.

E a nossa irmã é tratada e conhecida, igualmente, por Milai.


O Zé Quim com 11 anos, vestindo a farda de grumet, na Estalagem da Neve.


A 21 de agosto de 1965 o casal, José Maria e Emília, tiveram mais um filho, desta feita masculino, a quem deram o nome de João António, recuperando o nome do filho que tinha falecido em 1963.

Com o crescer da família e sem que as condições de habitabilidade tivessem melhorado, neste ano de 1965 foi institucionalizada a filha Maria José, no Preventório de D. Isabel Trigueiros. Juntava-se assim, às irmãs Isabel e Fátima, que, entretanto, já tinham sido transferidas para o colégio da Cerdeira, onde prosseguiram os estudos de 2ª e 3º ciclo.


Apesar das dificuldades que a família enfrentava, esta não parava de crescer. Não havia forma de parar uma máquina que se mantinha oleada e muito bem oleada. Foi no seguimento desse princípio que se gerou mais um ser vivo que haveria de nascer a 15 de outubro de 1966. Foi uma menina a quem deram o nome de Maria Helena. Era a 14ª ou, se juntarmos o aborto ocorrido em 1959, bem podia ser a 15ª de uma família demasiado grande e que não ficaria por aqui.


A 20 de outubro de 1967, num dia de feira anual de S. Mateus no Fundão, a Emília deu à luz mais uma menina a quem eram o nome de Maria Rosa. Infelizmente, esta criança viria a perecer, alguns dias depois do nascimento, nunca se chegando a perceber a razão da sua morte.

A compensação não tardou e, a 21 de setembro de 1968 nascia o Paulo Jorge, um rapaz que passou a ser o 17º da linhagem.

Neste mesmo ano a Maria Eugénia, então com cinco anos, foi, também ela institucionalizada, no Preventório, juntando-se irmã Maria José. As irmãs Isabel e Fátima, com 17 e 15 anos estavam a completar os estudos para se integrarem no mercado de trabalho.


A 14 de dezembro de 1969, nasceu mais um rapaz, a quem foi dado o nome de Carlos Alberto. Este bebe nasceu prematuro, com apenas 7 meses de gestação, tendo sido colocado, por isso, numa incubadora. Mas o inimaginável acabou por acontecer. No hospital do Fundão só havia uma incubadora, como, entretanto, nasceu uma outra criança prematura de um casal que ainda não tinha filhos, a administração do hospital decidiu que, tendo em consideração que a família Ribeiro já tinha muitos filhos, este iria deixar a incubadora para entrar a outra criança. Naturalmente, o filho da Emília e do José Maria, não conseguiu resistir e faleceu. Eram tempos muito difíceis e com recursos muito limitados.

Neste mesmo ano, a Maria Adelaide foi institucionalizada, no Preventório, juntando-se às irmãs Maria José e Maria Eugénia.


No dia 31 de janeiro de 1970, nasceu outro rapaz. A este deu-se o nome de Carlos Rafael. Como no hospital do Fundão tinha deixado de funcionar a maternidade, nós próprio, então com 17 anos de idade, tivemos que alugar um táxi para transportar a Emília, nossa mãe, ao Hospital da Covilhã. O pai tinha que ficar a tomar conta dos restantes filhos, ainda bebes, só que neste dia caiu um nevão de grandes proporções na cidade da Covilhã que impediu que o táxi conseguisse chegar ao hospital. Foi uma luta terrível contra o tempo, visto as contrações estarem cada vez mais aceleradas.  Foi necessário recorrer à GNR, que na altura tinha o seu posto mesmo em frente à estação de caminho de ferro. Até aí o táxi conseguiu chegar, por que era tudo a descer. A GNR, que prontamente nos assegurou o transporte, lá nos fez chegar ao hospital através de um dos seus jeeps. O hospital da Covilhã, na altura, ficava no ponto mais alto da cidade, de difícil acesso a viaturas ligeiras, sem tração, numa situação daquelas.


No ano de 1971, a Emília teve um aborto espontâneo, com cerca de cinco meses de gestação, para compensar, no ano seguinte, dia 6 de novembro de 1972, nascia o caçula da família. A este último filho, o casal deu-lhe o nome de Luís Miguel.

Numa aritmética rudimentar, porque vamos somar as gravidezes que acabaram por resultar em abortos, diria que das 20 gravidezes que o casal José Maria e Maria Emília concebeu, teriam resultado 21 “seres”, dos quais pereceram sete, tendo criado, sete raparigas e sete rapazes, todos muito perfeitos e muito amigos entre si.

Entre tantos filhos, teve que haver muita imaginação para dar nomes a todos. As raparigas todas tinham Maria no seu Nome, nos rapazes o nome João apareceu por três vezes e Carlos por duas vezes.


O José Maria Ribeiro, o nosso pai, era um homem com uma pose extraordinária, muito bem parecido, mas era, também, um homem austero, muito ríspido e por vezes agressivo, mas, ao mesmo tempo,  com um coração de manteiga. Tratou muito mal a sua esposa, nossa mãe, nos primeiros anos de casados e também não a tratou bem numa fase intermédia da sua vivência como casal. Nunca terá perdoado terem-no obrigado a casar. Pelos filhos também tinha comportamentos de alguma agressividade, principalmente com os mais velhos (Os últimos cinco ou seis filhos já não conheceram esta faceta do nosso pai) no entanto, fazia tudo, ainda que não parecesse, por cada um deles. 

Quando se lhe pedia alguma coisa a primeira resposta que dava era não, mas depois, havendo possibilidades, lá satisfazia os pedidos de cada um. Era muito sentimental em muitas e determinadas situações e facetas familiares. 

A beiça de choro e as lagrimas corriam-lhe pela face com muita facilidade. Sem qualquer tipo de contradição, os filhos, eram o seu orgulho maior e a única coisa na vida que o fazia sofrer a bem sofrer. Lembro o que ele sofreu quando a filha mais velha, Isabel, foi trabalhar para a Suíça e quando as filhas Maria José e Maria Eugénia foram para a Checoslováquia, parecia que o mundo se tinha desmoronado. Por via disso, o seu coração começou a dar problemas. 

As questões emocionais logo se transformaram em problemas cardíacos, que aumentaram significativamente quando o seu filho mais velho, José Joaquim, que estava na tropa, teve que ir para Angola, para a guerra no ultramar.

Foi um pai que exigiu, sempre, princípios de dignidade e honestidade a todos os filhos. Incutiu em todos nós uma filosofia de vida exemplar com princípios de boa educação, para com a família e para com todas as pessoas que se cruzassem connosco. Para o nosso pai era fundamental ter comportamentos cívicos, de educação e respeito pelo próximo e ser honestos em todas as situações da nossa vida. Ensinou-nos a não gastar mais do que aquilo que podíamos e, em termos muito pessoais, que podia servir de exemplo para cada um de nós, ele não comprava nada, mesmo que tivesse muita vontade, se não tivesse dinheiro para o pagar a pronto. 

Era um homem que usava termos que só da sua boca se podiam ouvir. “Os meus Parrafois” era o termo carinhoso que usava para falar de nós, os filhos, a outras pessoas. Outros exemplos, não são muito apropriados para serem aqui expostos, ainda que eu os use com frequência.

Deixou-nos no dia 24 de abril de 1979, com 53 anos de vida, ainda com seis filhos menores.

A Maria Emília, nossa mãe, foi uma heroína, a nossa heroína!


Ela é o nosso maior orgulho, não apenas pelo que passou na vida, mas, e sobretudo, pelo que nos deu e ainda nos continua a dar, de carinho, amor e mimos, que só as mães sabem dar.

Passou as passas do algarve na meninice, na sua adolescência e no próprio casamento. Do marido e de alguns familiares do marido, recebia reprovações, por vezes agressões e algum desprezo. O marido sempre teve dificuldade em a aceitar como esposa.

Sofreu muito com a perda de alguns dos filhos que pereceram precocemente, sofreu com a saída das filhas e do filho, para o colégio, ainda que soubesse que era o melhor para elas e para ele, sofreu com as que tiveram que emigrar, sofreu por não poder dar aos filhos tudo o que ela achava que eles mereciam.

Criou os filhos com grandes dificuldades, mesmo quando ainda tinha a seu lado o marido e, depois de ter ficado viúva, soube governar a vida com os fracos recursos financeiros de que dispunha, não esquecendo que seis dos filhos eram menores. Manteve os filhos a estudar, mesmo nos piores momentos de dificuldade e conseguiu manter uma família, de tamanho desmedida, completamente unida.

Possuída de uma inteligência rara, a Emília, nossa mãe, conseguiu, à sua maneira, encaminhar os filhos para projetos de vida com educação e honradez. Hoje é uma mãe orgulhosa dos seus filhos, dos seus 19 netos e dos seus 13 bisnetos.


A Dona Emília, que nunca foi à escola, insistiu para que cada filho ou neto conseguisse obter a melhor qualificação escolar possível. Orgulha-se de ter netos licenciados, formados em muitas e variadas áreas de atividade e orgulha-se de saber que todos estão bem na vida e bem integrados na sociedade. Tem uma atriz, um economista, um farmacêutico, uma Assistente Social, um Animador Cultural, uma Médica, uma vitrinista, uma Jurista, uma técnica de informática, uma bióloga, um arquiteto e outros em conclusão de estudos e diversas profissões. Todos eles são o seu maior orgulho.



Os 14 filhos que conseguiu criar e educar, só podem estar gratos pelos ensinamentos, pelos princípios que nos foram incutidos e, principalmente, pelas pequenas coisas, pois foram elas que fazeram a vida grandiosa de todos nós.

Foto no casamento do nosso irmão Rui, com todos os 14 irmão e nossa mãe

Pessoalmente, agradeço cada mimo, cada carinho, cada bênção, mas também, cada ralhete ou mesmo, cada palmada que recebi na hora certa e que contribuíram para a minha forma de estar na vida.



ELAS: Isabel, Fátima, Conceição, M. José, Eugénia, Adelaide e Helena

                           
            


Eles:

           








                    







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C. Caç. 4246/73 - Angola, junho de 1974 a setembro 1975

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